Via Blog do Tarso em 07/03/2016

Domingo (6) duas mil pessoas fizeram em frente à sede da Rede Globo, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, uma grande manifestação pela democratização da mídia, contra o monopólio da Rede Globo e contra a seletividade da emissora no ataque a seus adversários e aos adversários de seus patrocinadores. Centrais sindicais, partidos políticos, militantes, juristas, estudantes e membros de movimentos sociais fizeram um belo evento.

Por que protestar contra a Globo?

Várias respostas estão no documentário “Beyond Citizen Kane” (Muito Além do Cidadão Kane) assista aqui, de 1992, que foi exibido no Canal Quatro da BBC de Londres, emissora pública do Reino Unido. Na época foi censurado pelo Poder Judiciário no Brasil, a pedido do fundador e então presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, sendo posteriormente um pouco mais popularizado via internet. Roberto Marinho foi comparado a Charles Foster Kane, personagem de 1941 de Orson Welles no filme Cidadão Kane, uma ficção baseada na trajetória de um magnata da comunicação nos Estados Unidos da América, Willian Randolph Hearst.

As Organizações Globo apoiaram o golpe militar de 1964 e a ditadura que durou até 1985.

Até 1988 as concessões de rádio e TV no Brasil ocorriam por livre escolha do Presidente da República, e a Globo foi beneficiada pelos ditadores.

No início a Globo foi financiada pela Time-Life estadunidense, que participava dos lucros da Globo e fazia assistência na elaboração do conteúdo da emissora, o que era proibido pela Constituição de 1946, mas um processo foi engavetado durante a ditadura.

A ditadura garantiu o aumento da audiência da Globo, viabilizando crédito para a população de maioria analfabeta pudesse comprar televisores, ao mesmo tempo que precarizava a educação pública no país.

A TV Excelsior, que se opôs ao golpe, em 1970 teve a sua concessão cancelada pela ditadura.

Já a Globo ia além do que era requisitado com relação à censura e exaltava o regime militar, reforçando a censura, tanto é que proibiu a citação do nome de Chico Buarque.

O assassinato do jornalista Vladimir Herzog da TV Cultura foi preso e assassinado pela ditadura, mas isso não apareceu na Globo.

Até 2003 a Globo sempre foi governista. O presidente Médici, durante a ditadura militar, dizia: “Todas as noites quando vejo o noticiário sinto-me feliz. Por que? Porque no noticiário da TV Globo o mundo está um caos e o Brasil está em paz, é como tomar um calmante depois de um dia de trabalho.”

Durante a ditadura a Globo se tornou a quarta maior rede de TV do mundo.

A ditadura auxiliou a Globo com as transmissões via satélite pela Embratel.

A Rede Globo, vendo que a ditadura militar estava no fim, rompeu com os militares e não apoiou o candidato governista Paulo Maluf nas eleições indiretas, mas sim Tancredo Neves. Era tão grande o poder da Globo que, horas depois de sua eleição indireta, Neves almoçou com Roberto Marinho e Antônio Carlos Magalhães, e anunciou que esse seria o Ministro das Comunicações. Como Ministro, ACM perseguiu uma empresa, que depois foi vendida muito barato para a Globo. Em 1987 Roberto Marinho cancelou seu contrato com a TV Aratu na Bahia, que era a afiliada da TV há 18 anos, e passou para a TV Bahia da família e amigos de ACM.

A Constituição de 1988 tirou das mãos do presidente o poder de decidir pelas concessões, mas antes o então presidente José Sarney distribuiu 90 concessões para aliados, e Sarney ficou com duas.

No documentário são mostrados quatro exemplos de manipulação da Globo:


Lula:
Globo mentia sobre greves dos movimentos sindicais de 1979, sem mostrar posição dos sindicalistas, só com posição dos líderes patronais. Confessado pelo Armando Nogueira (1967-89 na Globo), que era uma recomendação da ditadura. Mas em vários casos sem interferência do governo, só pela diretoria da Globo.


Brizola: tentou boicotar sua eleição para governador do RJ.
Diretas Já: no começo boicotou, dizendo que manifestações eram pelo aniversário de São Paulo.

Eleições de 1989: PT fez Rede Povo no horário eleitoral gratuito. Globo fez propaganda para Fernando Collor de Mello desde 1987. No segundo turno Lula venceu o primeiro debate de Collor. No segundo debate, a poucos dias do pleito, o JN editou o debate e foi especialmente montado para deter Lula e eleger Collor, com 64% da audiência. Depois apresentou pesquisa telefônica dizendo que Collor venceu Lula no debate. No Jornal Hoje, mais cedo, o resumo foi diferente, mas diretores da Globo alteraram a edição para a noite. Armando Nogueira confirmou a edição alterada da noite, que inclusive foi protestar no dia seguinte para Roberto Marinho. “A Rede Globo foi infeliz e fez uma edição burra”, disse Armando Nogueira para Roberto Marinho, e logo depois foi aposentado e outro funcionário que também questionou foi demitido. Lula perdeu, quando estava subindo nas pesquisas e no dia do debate estava apenas 1% com Collor na frente, mas depois da edição da Globo a diferença parou de cair e subiu para 4%.

A Globo elegeu Collor, mas o abandonou em 1992 quando viu o povo contrário ao neoliberal presidente.

O documentário é finalizado pelo Canal Quatro com a seguinte frase, logo depois aparecendo a imagem da Globo sendo comida por baratas e aparecendo a imagem de Roberto Marinho: “A Globo começou a dominar a televisão no Brasil durante a ditadura militar, manteve o silêncio sobre as verdades daquele regime, agora está começando a falar mais. Mas será que a Globo e Roberto Marinho podem realmente se libertar dessa herança, ou será que o Brasil deveria libertar-se da dominação da Globo?”.

Ao final, música da banda de Rock brasileira Titãs, com a música “Televisão”, com composição de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Belloto: “A televisão me deixou burro, muito burro demais. Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais”.

A Globo apoiou o governo FHC, que privatizou o Estado brasileiro, comprou deputados para a aprovação da reeleição e precarizou a Administração Pública.

E, desde 2003, com o governo Lula e depois Dilma, a Globo nunca aceitou que estivesse no poder um presidente de um partido popular. A oposição foi mais realizada pela Globo do que dos próprios partidos de oposição.

A tática é simples. Políticas públicas favoráveis à população são escondidas. Denúncias contra o governo federal são apresentadas com destaque na programação, dia-a-dia, enquanto que denúncias contra políticos amigos da Globo ou contra empresas que patrocinam a Globo são engavetadas ou transmitidas de forma tímida. Manifestações contra o governo federal são divulgadas com antecedência e superestimadas, enquanto que as manifestações contrárias aos interesses da Globo são censuradas ou subdimensionadas.

É bom lembrar que a Constituição proíbe o monopólio da Globo e os serviços de TV e rádios são serviços públicos. Serviços esses que dependeriam do Congresso ou da Justiça, reféns da Globo, para qualquer mudança ou rescisão.

Sim, a Globo hoje tem uma certa qualidade em novelas ou alguns programas, mas as custas de muitos privilégios da ditadura militar, do Estado brasileiro, em todos os níveis, que gasta milhões de dinheiro público com a empresa.

Por isso a necessidade de uma democratização na mídia no Brasil, já realizada nos Estados Unidos da América, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Espanha, mas nunca realizada no Brasil.

Será que há motivos para que o povo brasileiro se indigne contra a Globo?

O problema é que em países ainda em desenvolvimento, normalmente as vítimas acabam defendendo os opressores.

Até quando?

Tarso Cabral Violin – advogado, professor de Direito Administrativo e Ciência Política, autor do Blog do Tarso e presidente da ParanáBlogs


Além do Cidadão Kane (documentário)


Simon Hartog "Beyond Citizen Kane" é um trabalho notável e fascinante que mostra a dimensão e a influência da Rede Globo na vida do brasileiro (Uma influência maior que a vida). O documentário mostra filmagens da rede em seus maiores momentos mostrando que, por trás de toda essa glória e sucesso, reside uma empresa poderosa com um enorme poder sobre as pessoas, incluindo artistas, políticos, e muitos outros. Controvérsias envolvendo a criação da rede, aliada ao regime militar durante 20 anos, a notícia falsa e a cobertura infame do debate presidencial em 1989 são mostrados com os comentários de várias pessoas famosas, incluindo os ex-diretores e jornalistas que trabalharam na Globo .

Este documentário ia ser lançado nos cinemas no Brasil, mas por causa do poder da Globo, foi proibido após uma exibição para a imprensa, em 1994. Nunca foi mostrado na televisão. Os brasileiros só puderam ver estas imagens quando cópias foram publicadas na internet (Globo ainda não controla a internet).

O título é uma comparação entre Charles Foster Kane (interpretado por Orson Welles em "Cidadão Kane") e Roberto Marinho, ex-presidente da Globo Corporation. Que é o mesmo tipo de poder que esses dois homens detinham em seus braços.
Assista!

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  1. Então prq o governoc veicula propagandas de seus bancos e empresas estatais nesse lixo. Parem e boicote a. Globo

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Bate-Papo vermelhô

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