Coincidências existem. Mas elas perdem este nome quando começam a acontecer serialmente e começam a se chamar “padrão”. Em miúdos: quando uma coisa começa a acontecer muitas vezes, ela deixa de ser um capricho do destino.

Vejamos o caso de Jô Soares, que teve seu programa jogado para as 2h20 da madrugada.
Na renovação do  décimo-quinto ano do Programa do Jô na grade da TV Globo, o comediante, ator e romancista teve a produção de seu programa severamente encurtada.

Para 2015 o “Gordo” já perdeu a plateia, passou a ser gravado em um estúdio menor e teve que mandar embora dois membros de sua banda. Na reestreia, Jô brincou: “fomos atingidos pela crise”.
Coincidência ou não, Jô Soares passou o mês de dezembro de 2014 dizendo coisas estranhas em seu programa.

Na ocasião de um debate que promove com as jornalistas Cristina Serra, Lilian Witte Fibe, Cristiana Lôbo, Ana Maria Tahan, registrou que acha um absurdo as previsões de que o Brasil está a caminho de virar uma “Venezuela, Cuba ou Bolívia”, seja lá o que isso queira dizer. Fez pior: defendeu com veemência o presidente boliviano Evo Morales, e acrescentou que ele vai bem em seu governo.

Ainda em dezembro, revirou os olhinhos para o que chamou de “surto de impeachment”. Fez oposição à convidada Lilian Witte Fibe, quando esta acusou todo o governo petista de “roubalheira”. “Você não acha que é uma generalização quando se fala em governo corrupto?”, perguntou.

No mesmo mês, teve a pachorra de dizer que José Dirceu, antes de ser condenado no julgamento do Mensalão, tinha “uma biografia impecável”. No mesmo diapasão, sobre Dilma: “um impeachment, hoje, da nossa presidente, que acabou de ser reeleita, é golpe.”

E chegamos à reestreia de 2015. Depois do downsizing violento, mais uma coincidência se anuncia no horizonte: Jô Soares volta a usar sua bancada para denunciar algo que o incomoda.

Para o apresentador de 77 anos de idade, o país está tomado por um catastrofismo estranho, uma pressa em julgar figuras de um certo perfil político e palavras de ordem autoritárias são sopradas contra a democracia não se sabe bem por quem.

Foi na semana passada. Jô promoveu um debate sobre o impeachment da presidente Dilma. Diante da experiente Ana Maria Tahan, disse: “Tenho muito medo dessa vitimização da presidente. Eu acho isso meio inconcebível no sentido de que estão fazendo dela uma vítima de uma eleição que foi absolutamente

legítima”, disse.
De olhos arregalados, Tahan disse: “Me desculpa, Jô, mas ela está pagando pelos erros dela mesma.”
Jô não se fez de rogado: “Mas isso vale o ‘Fora Dilma’?”

Voltemos ao coração da matéria: as coincidências. Da mesma forma que seu programa foi tolhido na reestreia, o que restou dele vai ao ar hoje, quinta-feira, 23 de abril de 2015, num horário em que nem os ladrões de galinha costumam trabalhar: 2h20 da manhã.
Repito: duas horas e vinte minutos de sexta-feira.

A chamada imprensa especializada diz que a culpa é do sucesso da novela Dez Mandamentos da TV Record, do espaço ocupado pela internet e do preço do tomate.

Vamos mergulhar na grade. O Jornal Nacional entrará no ar a partir das 20h49. A combalida Babilônia vem às 21h27 e, logo depois, às 22h41, o seriado Chapa Quente. Na sequência o especial Luz, câmera 50 anos. Pausa para tomar fôlego porque a noite é uma criança. Depois, às 1h04 vem o Na Moral do apresentador do BBB Pedro Bial, que entrega para o Jornal da Globo.

Só aí, às 2h22, vai ao ar o mesmo homem que inaugurou o talk show noturno no Brasil com Jô Soares Onze e Meia no SBT em 1988.

Se Jô Soares continuar dizendo coisas que não são bem vindas em seu ambiente de trabalho, não se espante se o próximo Programa do Jô que você assistir for um monólogo do apresentador gravado numa câmera VHS e exibido às 5h15, antes da Santa Missa em Seu Lar.

 via DCM - Diário do Centro do Mundo

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