Via Conexão Jornalismo em 10/10/2015

A guerra declarada pelo governo Geraldo Alckmin contra estudantes e professores de São Paulo é o ponto de partida para a análise do historiador. Para Lincoln Secco, o PSDB segue a mesma lógica do liberalismo oligárquico que vem desde a República Velha: "No caso de São Paulo há um agravante: o PSDB não apresenta nenhum mecanismo de participação porque governa com apoio eleitoral e midiático total. Em São Paulo não há oposição. (...) O PSDB governa São Paulo há vinte anos e descobriu só agora, num momento de diminuição de arrecadação, que essa reorganização escolar é boa e, por acaso, evita o aumento dos gastos com educação." Leia a entrevista que o historiador concedeu ao site Carta Maior:

São Paulo está sendo palco de mobilização de massa das mais contundente dos últimos anos, a dos estudantes secundaristas. Adolescentes de forma espontânea, porém organizada, desafiam um governo que tem a mídia a seu lado e que não hesita em jogar todo aparato repressivo do estado contra movimentos sociais, como fez agora ao ordenar que a PM reprimisse os estudantes.

Apesar da repressão, os estudantes resistiram e impuseram uma derrota à dinastia tucana só comparável à Ocupação da Reitoria da USP em 2007, quando José Serra teve que se vergar diante da mobilização estudantil e revogar decreto que tirava a autonomia das universidades públicas de São Paulo, fato que se repetiu agora com outro tucano, Geraldo Alckmin, que se viu forçado a recuar com seu projeto denominado de reorganização escolar.

movimento dos estudantes do ensino básico de São Paulo foi saudado e bem-vindo por ampla parcela da população e, principalmente, pelos setores progressistas e de esquerda, tanto mais num momento em que a esquerda tem clara dificuldade de mobilizar.

Para ajudar a compreender esses fenômenos, a Carta Maior entrevistou Lincoln Secco, professor de História na Universidade de São Paulo, que falou sobre as ocupações, o déficit de diálogo dos governos tucanos, do aparato repressivo e das perspectivas do movimento de ocupação das escolas contra a reorganização escolar.

É certo que o Estado deve apresentar ações para melhoria dos serviços públicos. No caso de São Paulo, elas sempre chegam de cima para baixo, lembremos de 2007, quando o então governador José Serra baixou um decreto que tirava a autonomia das universidades públicas paulistas sem nenhum debate prévio. É apenas um déficit de diálogo que está no cerne das ocupações nas escolas paulistas?

Lincoln Secco: Não é só falta de diálogo. No caso federal, ninguém tentou mais diálogo do que Lula com suas conferências, conselhos etc. E mesmo assim, Junho aconteceu contra todos os governos porque as demandas não cabiam mais num tipo de participação restrito às migalhas do orçamento. No caso de São Paulo há um agravante: o PSDB não apresenta nenhum mecanismo de participação porque governa com apoio eleitoral e midiático total. Em São Paulo não há oposição.

Por um lado o governo diz que a reestruturação escolar é baseada na correlação de que quanto menos ciclos numa escola, maior a nota. Este seria o único fator de melhoria do ensino?

LS.: O discurso tucano é engenhoso: todas as suas decisões são "técnicas". O fato de haver um grau de correlação entre duas variáveis que foram isoladas de um conjunto muito mais complexo não quer dizer que uma é a causa da outra. O PSDB governa São Paulo há vinte anos e descobriu só agora, num momento de diminuição de arrecadação, que essa reorganização escolar é boa e, por acaso, evita o aumento dos gastos com educação.

É demais dizer que por trás da reorganização decretada pelo governador Geraldo Alckmin, há uma lógica neoliberal?

LS.: Como historiador eu diria que é a lógica de longa duração da elite dirigente paulista. Desde a República Velha o seu discurso é o do liberalismo oligárquico: o Estado deve ser eficiente e gastar pouco, exceto quando se trata de "salvar a lavoura".

Levando em conta o histórico de mais de 20 anos governando o estado mais rico da federação, qual é a política dos tucanos para a educação?

LS.: São Paulo passou por todo tipo de experiência errática. Eu estudei nos anos 1980 numa escola estadual que só tinha ensino médio. Nos anos 1990, soube que ela passou a ter ensino desde o fundamental. Agora, o Governo descobriu de novo que o melhor é separar. Os tucanos não têm uma política educacional. Seus "antepassados" tinham. Era oferecer o "ginásio" para uma parte da população mais pobre e reservar os graus seguintes às elites. O método era simples: quem aprendia ficava oito anos na escola, os demais eram excluídos com a mácula de "repetentes" ou nem ingressavam na escola. Agora, o que existe é só uma política de metas quantitativas: garantir um número grande de alunos dentro da escola em salas lotadas com professores mal pagos. Como o resultado disso é um dos piores ensinos do país, surge a noção puramente ideológica (essa sim produzida pelos neoliberais nos anos 1990) de que a solução é introduzir mecanismos de mercado e concorrência no sistema (bônus por "resultados").

O governo de São Paulo parece não aceitar a política como mobilização popular e construção do comum. Em virtude disso, a cada ano aumentam medidas militares para cercear o debate político. Hoje o governador coloca a polícia para reprimir adolescentes e crianças. O senhor pode comentar esse fenômeno e como vê a mobilização dos estudantes do ensino básico da rede pública paulista?

LS.: A polícia é militar e comandada por governantes autoritários amparados numa cultura autoritária. Ela é disseminada até entre os pobres. Não tenho competência para discutir profundamente essa questão. Acredito que a novidade é que nos últimos anos há uma juventude que passou a desafiar politicamente a polícia e, simultaneamente, há uma hegemonia de valores de direita. Algo muito diferente dos anos 1980 em que a polícia era igualmente violenta, mas o número de confrontos urbanos com a esquerda era menor, ao menos na minha memória militante. Nós tínhamos uma esquerda em ascensão.

Diante da depressão política e cultural que vivemos, o movimento dos estudantes tem sido um alento para os chamados setores progressistas da sociedade. O que pode ser feito para que esse movimento não seja engolido pela impotência por conta da dura repressão que está sofrendo, bem como de não conseguir passar da indignação e da explosão, ou seja, dar o passo seguinte?

LS.: Esse é o maior dilema histórico da esquerda (risos). É possível fazer uma crítica total da sociedade capitalista sem cair na impotência prática? É possível usar brechas do sistema para reformá-lo sem se burocratizar? O fato é que movimentos como o das escolas são organizados em pequena escala e, quando bem sucedidos, geram uma reação em cadeia. Os partidos não conseguem fazer isso. Alguns se perguntam: qual o saldo organizativo disso? É bem provável que haja um, mas não será agora e nem sob orientação externa. A pergunta deve ser outra: se a esquerda estabelecida vive um evidente fracasso programático por que jogar essa energia jovem em defesa de um programa fracassado?

Que relação esse movimento guarda com Junho de 2013?

LS.: Iria além de Junho. A revolta do buzu aconteceu no primeiro ano do mandato de Lula e já evidenciava o afastamento de parte da esquerda de um novo tipo de contestação. A ocupação da Reitoria da USP contra o decreto de Serra que você citou foi um exercício de autonomia que colocou em choque uma organização horizontal e a dos tradicionais militantes do movimento estudantil.

Assim como em 2002 e 2007 na USP, por exemplo, o principal ator na luta por melhorias efetivas na educação são os estudantes. Acabamos de saber que o Alckmin recuou e suspendeu a reorganização escolar. Tal qual em 2007, esta é a segunda vez que um governo tucano sofre derrota significativa em São Paulo, mesmo com toda a blindagem tradicional da mídia em relação ao PSDB. Qual a leitura que se pode fazer disso e o que acontece com a classe dos professores que não consegue unidade mínima para ir além de lutas corporativas? 

LS.: Os estudantes são a única categoria que por razões etárias não defende nenhum interesse corporativo. Eventualmente, solicitam melhorias pontuais, mas a sua luta é a única que tem uma capacidade de ultrapassar os interesses próprios e disputar valores na sociedade, ainda que num nível muito elementar. Os professores e funcionários só se mobilizam pelo salário. Além disso, são uma categoria profissional que se organiza pelo sindicato. Você não poderia imaginar a Apeoesp comandando ocupações porque ela seria multada e inviabilizada por algum juiz. No entanto, apesar da moderação de sua burocracia dirigente, ela já teve que apoiar um grupo de professores numa longa ocupação da Assembleia Legislativa em 1994 se não me falha a memória. O país estava no início da experiência neoliberal. Hoje vivemos sob uma hegemonia avassaladora dos valores de direita e difundidos de forma totalitária pelos meios de comunicação. Agentes da polícia e do judiciário em todos os escalões ampliam a margem de interpretação das leis de maneira seletiva e punem qualquer modalidade de mobilização popular. Ainda assim, só as formas "espontâneas" (na verdade muito organizadas) de movimentos como este das ocupações das escolas conseguem surpreender os donos do poder e, eventualmente, contornar sua violência policial, judiciária e midiática. Outras vezes são apanhados nas malhas da dominação, como aconteceu com muitos protestos pós-junho de 201
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